26.5.19

A Parábola das Três Árvores - Parte 3


O Poilão


Estava no telefone aos prantos. Do outro lado da linha, minha mãe ouvia em silêncio – sem saber o que me dizer. “ – Dei o meu melhor! E o meu melhor não foi suficiente!”, eu repetia. Minha tristeza vinha de um resultado de prova, um concurso que estava prestando. Por apenas 1 ponto perdi a classificação e, portanto, a vaga que tanto queria. Cheguei tão perto! Faltou pouco! A dor do “quase” é terrível, especialmente quando você fez tudo o que estava ao seu alcance. E como é difícil lidar com fracassos, não é mesmo?

Ao longo da vida a gente aprende que se a gente se esforçar muito, estudar bastante e fazer as coisas certas, coisas boas vão acontecer. Trabalho duro, disciplina, persistência, resiliência. Receita de sucesso, certo? Tudo isso é até verdade. Mas não é TODA a verdade. Haverá sempre alguma coisa, um pequeno detalhe, que não dependerá de você. Ou dos seus esforços.

Recentemente, fiz uma viagem que durou cerca de 3 semanas. Como tenho uma mini-hortinha, distribuí meus vasinhos de flores e plantinhas a parentes e amigos para que cuidassem delas na minha ausência. Todas, menos uma: era uma calanchoê que não estava se desenvolvendo muito bem. Feia que só, a coitadinha! Já havia desistido dela e estava disposta a descartá-la, mas com a correria de preparativos para a viagem acabei me esquecendo.

No dia do voo, fiz o check up final no apartamento, me certificando que tudo estava no lugar, trancado etc. Foi aí que vi minha calanchoê feiosa, na sacada. Me senti culpada por deixá-la ali, para morrer. Então decidi regá-la uma última vez, deixando a terra bem encharcada. Enchi também o reservatório do vaso autoirrigável onde ela estava. Pelos meus cálculos, isso seria suficiente para que ela sobrevivesse por 2 semanas. Mas, provavelmente, ela morreria de sede na minha terceira semana ausente. Me despedi dela, na certeza de que era a última vez que a veria verdinha.

Três semanas depois...

Cheguei em casa e, para minha surpresa, a plantinha estava viva. Quer dizer, algumas folhas um pouco queimadas do sol, mas viva! Mais que isso: estava carregada de botõezinhos, prontos para florir.

E hoje ela está assim:



Toda vez que olho para ela minha consciência dói um pouco. Não mereço que ela embeleze minha casa porque não cuidei bem dela! Há algum pequeno milagre acontecendo numa flor que desabrocha ou numa semente que germina. O que me leva ao poilão...

O poilão é uma árvore muito comum em Guiné Bissau. Não tem como não se impressionar com sua grandeza. Ela é toda grande! Em altura, em largura... Dá para se esconder entre suas altas raízes. É impressionante pensar no seu desenvolvimento naquelas condições tão áridas.




A imagem acima é um paradoxo. Toda a grandeza de uma árvore contrastando com a pequenez da “garota que pode fazer qualquer coisa”.

Eu não poderia estar mais errada. Há coisas que não posso fazer. Não posso fazer crescer um poilão centenário. Não posso nem ganhar créditos pelas plantinhas na minha sacada! Há coisas que não dependem de mim. Mas, sendo bastante honesta, eu gostaria que dependessem. Ah, como eu gostaria de ter o controle de tudo... Só eu?


"Temos receio de que a vontade de Deus seja feita porque não podemos controlar o que Ele fará, quando Ele fará, como Ele fará e o resultado que poderá ser. A vontade de Deus requer renúncia e confiança, e isso é algo que não estamos dispostos a oferecer." (Peter Scazzero, em "EspiritualidadeEmocionalmente Saudável")

Eu me lembro de uma história que Jesus contou, sobre um jovem que pediu a seu pai a sua parte da herança e saiu pelo mundo, desfrutando de tudo o que queria. Quando se viu na miséria, se arrependeu e quis voltar para casa. Seu plano era simples: voltar como empregado. Porque, assim como eu, aquele jovem acreditava que ele precisava fazer algo para merecer o amor do pai. Completamente inútil! Nada do que ele fizesse poderia fazer que seu Pai o amasse mais. E nada do que ele tivesse feito poderia fazer que seu Pai o amasse menos. O amor do Pai é assim, constrangedor – fere nosso orgulho desejoso de mérito próprio.


Recentemente tive um reencontro com um rapaz por quem já fui apaixonada. Ok, não era uma paixãozinha. Era uma apaixonite mesmo. Com o sufixo “ite” típico das coisas inflamadas e que, em geral, são um sinal de que algo não anda lá muito bem... (Engraçado, hoje não me imagino me apaixonando. Ao menos não daquele jeito.)

Embora a paixão não exista mais, ficou a admiração. Ele é, provavelmente, uma das pessoas que mais admiro hoje. E uma das que mais me influenciou positivamente, mesmo sem saber. Ele tem um relacionamento com Deus, como eu gostaria de ter. Escolheu viver uma vida sensacional de aventura e de serviço, como eu ainda não tenho coragem de viver. E é íntegro com todas as pessoas, de um jeito que eu ainda não consigo ser. Diante disso tudo, era natural que eu pensasse: Ei! É ele quem eu quero. Será? Será se quero mesmo?

Provavelmente ele nunca saberá disso, mas antes de nos encontrarmos decidi que as poucas horas de nosso passeio seriam meu experimento. Queria descobrir como nos comportaríamos juntos (e shallow now rs). E como eu me sentiria. E se era a hora de colocar, definitivamente, um ponto final nessa história.

Na véspera do dia combinado eu não consegui dormir direito. Estava no ar aquela sensação de “última chance”. O que eu deveria dizer? Como agir? E o que fazer? Acabei não planejando coisa alguma e o resultado foi uma Michele extremamente cansada e sonolenta que, movida por um senso de urgência, tentou prolongar as horas do passeio enquanto pôde. Movida pelo mesmo senso de urgência, deixei escapar que ele “ainda estava na minha lista de possibilidades”.

Foi uma declaração sincera. E a resposta veio sincera também: ele não desejava estar na minha lista. E quando um não quer, dois não... Você sabe.

Não há um jeito bom de dar um fora a alguém, então devo reconhecer que ele foi extremamente cuidadoso ao fazê-lo. Encerrou seu discurso com uma afirmação que confortou na mesma medida em que machucou: “Não há nada de errado com você. Não há nada que você tenha feito de errado. Ou que não tenha feito.”

Em outras palavras: “Não há nada que você possa fazer para mudar isso.”

Queria poder dizer que fiz o melhor e que o melhor não foi o suficiente. Mas não penso ser o caso. Primeiro, porque estou longe de ser o melhor que posso ser. E, ainda que eu fosse, havia uma escolha que não cabia a mim: a dele. E ele não me escolheu.

Eis aí um claro ponto final.

Tomei uns dias para lidar com tudo isso e pensar a respeito. Encontrei uma verdade que me assustou um pouco. A verdade é que minha admiração por ele existe porque eu gostaria de ser mais parecida com ele. Como disse, sua influência foi muito positiva em minha vida. Mas ele só foi capaz de exercer essa influência por estar ligado com Cristo. Finalmente, entendi que estava terceirizando meu relacionamento com o filho de Deus. Não faz sentido me espelhar num imitador de Jesus quando Ele, o próprio Cristo, está disponível. Sem intermediários. Eu não devia estar preocupada em amar e ser amada pelo Mestre, em vez do discípulo?

Então, quando olho para mim me sinto como aquele jovem que foi para muito longe do Pai. Eu sei que não há nada que eu possa fazer para que Ele me ame mais. Ou menos. No entanto, há algo que Ele pode fazer mim, que não sou capaz de fazer por mim mesma. Hoje, tive que fazer a oração mais difícil que já fiz. Aquela que tinha medo de fazer e que doeu quando ouvi sair da minha boca: 

“Senhor... Eu não te amo. Faço coisas no Teu nome. Canto sobre o Teu amor. Me aproximo de pessoas que Te amam porque espero que elas me ajudem a Te amar também. Só que não está funcionando. E sozinha eu não consigo. Eu não te amo. Mas quero te amar. Me ensina. Me ajuda. Fala comigo e anda comigo. Só nós dois. Amém.”

Minha história terminou em amizade e ganhou tom de despedida. Fiquei feliz por ter a chance de demonstrar carinho e apreço de duas formas. Dei a ele um livro de presente (atrasado) de formatura, que tem um singelo significado para mim. E dei a oportunidade de apreciar esta vista, que é uma maneira bonita de se dizer adeus a alguém, ou um lugar:



Espero que ele seja feliz, onde quer que esteja. Quanto a mim, estou voltando para a casa do Pai – de onde nunca deveria ter saído.

O Pai se alegra quando usamos nossa capacidade e nossas forças para crescer, aprender e decidir o rumo da vida. Há, contudo, algum aspecto que dependerá exclusivamente dEle. Ou alguns. Já aprendi que tem um lado da minha vida que não pode ficar sob meu governo – ao menos por enquanto. Sobre essa questão, resta-me uma mudança de paradigma. Esperar, em vez de criar expectativa.

Criar expectativa é imaginar uma realidade ilusória, que faz sentido na nossa cabeça e daí orar para que Deus torne real essa ilusão. E quão enganoso é nosso coração nesse processo!

Esperar é confiar que Deus excede em capacidade e sabedoria, quando estas nos faltam. Esperar é reconhecer que a vontade dEle, de longe, é bem melhor. Esperar é descansar nossa decisão aos pés da cruz, até que nosso pensamento se aproxime do pensamento dEle. E então, só então, o livre arbítrio tem chance de escolher com segurança.

Eu creio que Deus é capaz de cuidar daquilo que não posso. Assim como cuida do grande poilão, centenário, duradouro e imponente. Mas longe de mim ser um poilão. Não sou tão grande, nem tão forte.

Há quase um ano, quando escrevi este texto, orei pedindo que Deus me fizesse como uma mangueira que persiste e que dá frutos. A oração de hoje é a mesma. Acrescento apenas uma coisa:

“Se não for pedir muito, Senhor, me permite ser aquela mangueira que pedi... E me deixa crescer do lado de alguma outra árvore. Pode escolher por mim! Talvez outra mangueira? Eu gostaria muito que fosse um poilão, já acostumado a depender de Ti. Sei que uma mangueira e um poilão dificilmente crescem juntos. Mas quando o Senhor age, uma mangueira e um poilão podem se tornar um só. Eu sei porque já vi. Apesar disso, repito, escolhe por mim. Amém.”




Mas ele me disse: "Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza". Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim. Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco é que sou forte. 2 Coríntios 12:9-10


28.5.18

A Parábola das Três Árvores - Parte 2


Meu Pé de Manga Coquinho


A casa onde cresci tinha um grande quintal. Uma parte era cimentada, onde andávamos de bicicleta, brincávamos de amarelinha e pega-pega. Mais ao fundo, tinha uma horta, cuidada pelo meu avô. E tinha muitas árvores frutíferas: limão, mexerica, pitanga, fruto do conde, maracujá, romã, goiaba e alguns tipos de manga. Manga comum, manga espada e manga coquinho. Esta última, era a nossa maior mangueira e ficava exatamente no centro do nosso quintal verde. Não há manga mais saborosa (no mundo!) do que aquela. Eu amava aquela árvore! Era frondosa, alta. Quantas vezes ralei os joelhos naquele tronco! Lembro-me de subir bem alto nos seus galhos – para o desespero dos meus pais – num tempo em que eu ainda não tinha medo de altura. Lá de cima, dava para ver todo o quintal e também um pouco da casa dos vizinhos. À esquerda, via a horta do Sô Antônio. À direita, as flores do Seu Olívio. E, no fundo, um grande terreno sem casas onde havia algumas mangueiras, todas de manga comum. “Tudo manga comum!”

Gostosa era a manga coquinho! Você conhece? É uma manga menor, meio redondinha. Quando madura, fica bem amarela. Não é cheia de fiapos, nem muito doce.  Sua consistência é firme, gostosa de morder.  E tem um azedinho bem bom! Deve ser difícil de achar. Na minha infância, o único lugar que eu sabia ter manga coquinho era no nosso quintal. Da minha mangueira.

Guardo uma lembrança muito antiga e muito viva dela.

Tínhamos um balanço amarrado num dos seus galhos. Era, basicamente, uma táboa velha com duas cordas bem grossas – algo que meu pai improvisou. Mas... Eita balanço bom de balançar! Não sei dizer qual era a minha idade, talvez uns 4 ou 5 anos. Eu me lembro de uma manhã fresca em que fui brincar ali. O orvalho da noite ainda estava nas plantas. O sol estava escondido atrás da copa da árvore, mas na medida em que o vento balançava seus galhos, alguns raios passavam por entre as folhas, fazendo brilhar aquelas gotinhas de orvalho na grama verde sob os meus pés – e era a coisa mais bonita de se ver!

Ia balançando devagar, meio sonolenta ainda, olhando todo aquele cenário. O vento e o canto dos passarinhos faziam um barulho bom. Os pés descalços tocavam, de leve, a pontinha da grama – que na verdade era mato, rs – e aquilo me dava cócegas. Lembro que eu ria gostoso. E lembro que essa foi a primeira vez em que me dei conta de que era feliz:

“Que vida boa eu tenho!”, pensei.

Algum tempo se passou. Uma noite, fui procurar meu gatinho pelo quintal e notei um clarão aos pés da minha mangueira favorita. Fogo! É fogo!

Chamei meus pais, que rapidamente vieram com meu irmão. Nos unimos todos, enchendo baldes com água, até darmos cabo do incêndio. Ainda hoje não sabemos como o fogo começou. Teria sido um balão de festa junina? Ou foi provocado por algum vizinho invejoso, dono de mangueiras de mangas comuns? Não importava. O estrago estava feito: aquele tronco que eu mal conseguia abraçar estava todo queimado. “Ela vai morrer?”. – perguntei ao meu pai. Ele não sabia.

Em setembro daquele ano, nossa mangueira ainda teve uma florada. E deu frutos, mais uma vez. E essa foi a última vez que comi manga coquinho.

Dela, ficaram as lembranças: da sua sombra boa, seus galhos altos, sua fruta gostosa e de dias felizes.

A vida vai mudando enquanto a gente cresce. Mas, de um jeito bem particular, ainda posso rir gostoso e dizer: Que vida boa que eu tenho!

Hoje é meu aniversário e tenho muito a agradecer. Deus é bom o tempo todo, mas tem sido especialmente bom e generoso comigo nos últimos tempos. Digo “especialmente” porque não creio que eu mereça tudo o que Ele fez e faz. A Ele, minha gratidão e minha oração de aniversário:


Paizinho,
Obrigada por mais um ano de vida. Obrigada pelo cuidado e proteção – Você não desgruda os olhos de mim! Eu sei que não temos conversado muito, ultimamente. Ando ocupada com coisas “importantes”. Mas sei também que nada é mais importante do que andarmos juntos. Obrigada por estar do meu lado, mesmo quando não me dou conta.
Obrigada pela vida boa que eu tenho. Sempre boa. Sempre cheia de pequenos prazeres, apesar dos problemas. E, especialmente, obrigada por não desistir de mim.
Eu sei que terei que fazer essa escolha todos os dias, mas hoje é meu aniversário. E pedido de aniversário é de verdade-verdadinha, não é mesmo? O que quero Te pedir é que me deixe mais parecida com a minha mangueira da infância. Que, enquanto eu viver, seja sombra para dar alívio a quem precisa. Que eu dê frutos, até meu último suspiro. Que, perto de mim, alguém possa se dar conta de que é feliz. Assim como eu sou. Assim como Você me faz. Assim como Você ensinou.
:)