28.5.18

A Parábola das Três Árvores - Parte 2


Meu Pé de Manga Coquinho


A casa onde cresci tinha um grande quintal. Uma parte era cimentada, onde andávamos de bicicleta, brincávamos de amarelinha e pega-pega. Mais ao fundo, tinha uma horta, cuidada pelo meu avô. E tinha muitas árvores frutíferas: limão, mexerica, pitanga, fruto do conde, maracujá, romã, goiaba e alguns tipos de manga. Manga comum, manga espada e manga coquinho. Esta última, era a nossa maior mangueira e ficava exatamente no centro do nosso quintal verde. Não há manga mais saborosa (no mundo!) do que aquela. Eu amava aquela árvore! Era frondosa, alta. Quantas vezes ralei os joelhos naquele tronco! Lembro-me de subir bem alto nos seus galhos – para o desespero dos meus pais – num tempo em que eu ainda não tinha medo de altura. Lá de cima, dava para ver todo o quintal e também um pouco da casa dos vizinhos. À esquerda, via a horta do Sô Antônio. À direita, as flores do Seu Olívio. E, no fundo, um grande terreno sem casas onde havia algumas mangueiras, todas de manga comum. “Tudo manga comum!”

Gostosa era a manga coquinho! Você conhece? É uma manga menor, meio redondinha. Quando madura, fica bem amarela. Não é cheia de fiapos, nem muito doce.  Sua consistência é firme, gostosa de morder.  E tem um azedinho bem bom! Deve ser difícil de achar. Na minha infância, o único lugar que eu sabia ter manga coquinho era no nosso quintal. Da minha mangueira.

Guardo uma lembrança muito antiga e muito viva dela.

Tínhamos um balanço amarrado num dos seus galhos. Era, basicamente, uma táboa velha com duas cordas bem grossas – algo que meu pai improvisou. Mas... Eita balanço bom de balançar! Não sei dizer qual era a minha idade, talvez uns 4 ou 5 anos. Eu me lembro de uma manhã fresca em que fui brincar ali. O orvalho da noite ainda estava nas plantas. O sol estava escondido atrás da copa da árvore, mas na medida em que o vento balançava seus galhos, alguns raios passavam por entre as folhas, fazendo brilhar aquelas gotinhas de orvalho na grama verde sob os meus pés – e era a coisa mais bonita de se ver!

Ia balançando devagar, meio sonolenta ainda, olhando todo aquele cenário. O vento e o canto dos passarinhos faziam um barulho bom. Os pés descalços tocavam, de leve, a pontinha da grama – que na verdade era mato, rs – e aquilo me dava cócegas. Lembro que eu ria gostoso. E lembro que essa foi a primeira vez em que me dei conta de que era feliz:

“Que vida boa eu tenho!”, pensei.

Algum tempo se passou. Uma noite, fui procurar meu gatinho pelo quintal e notei um clarão aos pés da minha mangueira favorita. Fogo! É fogo!

Chamei meus pais, que rapidamente vieram com meu irmão. Nos unimos todos, enchendo baldes com água, até darmos cabo do incêndio. Ainda hoje não sabemos como o fogo começou. Teria sido um balão de festa junina? Ou foi provocado por algum vizinho invejoso, dono de mangueiras de mangas comuns? Não importava. O estrago estava feito: aquele tronco que eu mal conseguia abraçar estava todo queimado. “Ela vai morrer?”. – perguntei ao meu pai. Ele não sabia.

Em setembro daquele ano, nossa mangueira ainda teve uma florada. E deu frutos, mais uma vez. E essa foi a última vez que comi manga coquinho.

Dela, ficaram as lembranças: da sua sombra boa, seus galhos altos, sua fruta gostosa e de dias felizes.

A vida vai mudando enquanto a gente cresce. Mas, de um jeito bem particular, ainda posso rir gostoso e dizer: Que vida boa que eu tenho!

Hoje é meu aniversário e tenho muito a agradecer. Deus é bom o tempo todo, mas tem sido especialmente bom e generoso comigo nos últimos tempos. Digo “especialmente” porque não creio que eu mereça tudo o que Ele fez e faz. A Ele, minha gratidão e minha oração de aniversário:


Paizinho,
Obrigada por mais um ano de vida. Obrigada pelo cuidado e proteção – Você não desgruda os olhos de mim! Eu sei que não temos conversado muito, ultimamente. Ando ocupada com coisas “importantes”. Mas sei também que nada é mais importante do que andarmos juntos. Obrigada por estar do meu lado, mesmo quando não me dou conta.
Obrigada pela vida boa que eu tenho. Sempre boa. Sempre cheia de pequenos prazeres, apesar dos problemas. E, especialmente, obrigada por não desistir de mim.
Eu sei que terei que fazer essa escolha todos os dias, mas hoje é meu aniversário. E pedido de aniversário é de verdade-verdadinha, não é mesmo? O que quero Te pedir é que me deixe mais parecida com a minha mangueira da infância. Que, enquanto eu viver, seja sombra para dar alívio a quem precisa. Que eu dê frutos, até meu último suspiro. Que, perto de mim, alguém possa se dar conta de que é feliz. Assim como eu sou. Assim como Você me faz. Assim como Você ensinou.
:)

Nenhum comentário: